O Aikido é uma arte marcial que engloba diferentes saberes como equilíbrio, fluidez, postura e atenção, mas engana-se quem imagina que esta prática se limita à excelência da técnica - o estudo do aikido se encontra justamente na harmonia entre o físico e o mental, o corpo e o espirito. Assim como em muitas outras artes marciais, a filosofia e o senso de disciplina são pilares importantíssimos, valores que são construídos na vivencia contínua do movimento, na escuta e na relação com o outro.
Em diferentes etapas ao longo das graduações, os praticantes devem ir ajustando diferentes noções. Ao iniciar, um jovem praticante não deve se preocupar com princípios filosóficos do aikido, como espirito e mente, mas devem praticar com muito vigor físico e procurando entender a execução correta das técnicas. Ao se tornar um praticante um pouco mais experiente, seu olhar deve começar a se voltar para aspectos que não eram antes tão necessários, como o estado de vigilância de espirito (zanshin), a interferência do mental na prática, a noção de espaço e até a consciência da própria respiração. Já aos mais antigos, cabe deixar de lado um tanto de vigor físico e preocupações com o formato da técnica, pois esses saberes devem abrir espaço para o espirito, o coração e a mente do praticante. Intuitivamente, um praticante de longa data deve se atentar para a importância da harmonia das energias internas e as respostas que elas produzem ao corpo exterior. Um praticante ainda mais atento pode perceber a direta relação entre essa energética e sua própria respiração.
Do ponto de vista fisiológico, a respiração é responsável pela oxigenação muscular, possibilitando uma rápida contração, também auxiliando na recuperação deste tecido e na redução da fadiga. Durante um treino, uma respiração profunda e ritmada auxilia na redução da frequência cardíaca, diminuindo também a liberação de hormônios do estresse, promovendo assim uma maior segurança no movimento. A forma como respiramos pode refletir em um estado de alerta excessivo ou, ao contrário, favorecer a calma e a estabilidade necessárias para movimentos precisos.
No aikido de modo geral, o mais frequente ao executar as técnicas é expirar ao realizar uma projeção. Da mesma forma que nossa energia está “saindo” para impulsionar o movimento, a respiração deve acompanhar e “expulsar” esse ar, seguindo a intenção da energia enviada. Do contrário, ao reter esse ar dentro do corpo na hora do pico da intenção, por imaginar que assim resultará em mais força, na realidade só estará criando uma energia tensa; é como se o fluxo energético estivesse sendo fechado. Igualmente, quando inspiramos na hora errada, criamos uma energia desconexa com o corpo, e assim uma movimentação desalinhada. Podemos perceber então, que uma respiração agitada revela uma energia interior também agitada, em desarmonia com o todo.
Mesmo com a dificuldade de se atentar à respiração durante os treinos, não podemos relaxar sobre isso, sendo o aikido o caminho da harmonia da energia interna, ousaria dizer que menosprezar este princípio seria como ignorar um dos pilares principais para um estudo aprofundado desta arte.
Texto apresentado como requisito parcial para exame de graduação de 1º Dan realizado em 20 de dezembro 2025.