A vida é um emaranhado, uma rede de caminhos, de pontos aparentemente individuais, únicos que se entrelaçam, porém, formando um Todo. São pontos, micro pontos, nano pontos, por que não dizer, “comprimentos de plank”? São, enfim, infinitesimais pontos de energia. Somos ENERGIA inter-relacionadas!
Hermes Trismegisto já o disse: “o que há acima, há abaixo, o que há dentro há fora…”.
Então, a filosofia nos induz à internalização, ao autoconhecimento, às questões: “quem somos nós, qual nosso propósito, por que existimos, o que é o existir?” Daí quem sabe, possamos entender o que se passa no exterior. Por vezes, nosso sentimento nos leva a crer que existe uma fonte, uma causa, um caminho… Mas… há de fato, um fim? Não cremos. Aliás, não vivemos, apenas caminhamos.
Concebe-se que o Aikido é o traçado de um caminho harmonioso, com manipulação de energia vital. Esta é nossa ARTE MARCIAL.
Mas, então, por que marcial? A IA define que a palavra marcial “está ligada a Marte, o deus romano da guerra, implicando características como guerreiro, belicoso, militar, corajoso, disciplinado e vigoroso”.
É sensato imaginar que não há outro modo de manipulação das energias da Terra, que não seja através de elementos e valores inerentes ao nosso meio.
Sabemos: os fundamentos técnicos do Aikido baseiam-se intrinsicamente nas técnicas de utilização da espada. Existe aí, uma bela representação de nossas épicas batalhas internas, sopesando e harmonizando nossas inclinações egoicas, mas que nessas batalhas não há vitorioso, a não ser a assunção de nosso Eu (o Si, no português de nosso Mestre), sobre as inclinações de nosso Ego.
O Mestre Georges Stobbaerts sempre nos disse: 1+1 = 1 (sobretudo, nas artes marciais, no Aikido). Ele referia-se sempre à “utopia”, ou seja: lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos – infinito, sem ponto final. Então, resta-nos que a vida se resume ao caminhar sempre. Esse caminho é composto de obstáculos, desafios, por vezes, inevitáveis, fundamentais, que alhures, algum sábio mencionou: os obstáculos no nosso caminho não são obstáculos – são o caminho.
Todos nós somos individualidades, porém conectados com o Todo. O Aikido é a trilha de um caminho mais harmonioso, que nos faz contornar obstáculos, como as águas de um rio perene, sem que tenhamos que amaldiçoá-los, maldizê-los e nos estancarmos contemplando aquele “estorvo” que nos embaraça a trajetória. Somos pontos, parte de um Todo, uno, energeticamente interligados, sempre emanando energia, estendendo-se infinitamente, para o pequeno e para o grande. A prática do Aikido é a representação de tudo isto.
Ali, no tatame, reunimo-nos com nossos pares, parceiros, para a necessária manipulação da energia ki, buscando a harmonia dos movimentos que simbolizam a nossa relação com os obstáculos dos caminhos, aparentemente distintos para cada Eu ali envolvido, mas com a reconhecida unicidade de todos os elementos envolvidos. Ataques (obstáculos), que originam os desvios, projeções e imobilizações – sempre se dinamizam, buscando a harmonização de toda a caminhada, quiçá, ao nosso Interior, focando o Belo, a Perfeição.
No Aikido não existe oponente, existe o Parceiro. Os parceiros treinam os movimentos criados, ou melhor, revelados pelo Ô Sensei Ueshiba. Esses movimentos nos ensinam sempre a não se opor, a não bater de frente com os “obstáculos”, mas sim a nos desviar deles, a imobilizá-los sob a égide de profundo respeito, porque são necessários à nossa evolução. Projeta-se os obstáculos para outra linha de influência ou os imobiliza até que se arrefeça a sua potencialidade energética.
A queda é a retomada da caminhada. A iminência da queda se nos apresenta com o vazio, de que tanto nos falou o Mestre Stobbaerts. É o ponto onde nós temos que nos entregar, deixar ir, num momento demasiado curto, mas sublime, muito forte. Deixar ir…deixar-se projetar, cair conscientemente e retomar sua caminhada – este é o mote. Particularmente, cremos que são esses os preceitos básicos, fundamentais do Aikido.
A incorporação dessa mentalidade da bela arte marcial, nos condiciona para caminharmos no nosso cotidiano, em todos os sentidos, na espiritualidade e na materialidade, conforme os preceitos herméticos alhures abordados. A vida é o caminho farto de obstáculos e nuances - no Aikido, representados pelos parceiros (degraus elevatórios e potenciais professores). Na medida de nossa evolução diante do inevitável, nossa jornada transforma-se em leveza tal que somos induzidos a sentimento de paz, alegria e indescritível vontade de colaborar com o outro e com toda a vida que nos contorna. Agregamos, somos um, com todos e com tudo.
Eu não procurei o Aikido. Fui levado a buscá-lo. Vivia um momento difícil, conflituoso, discutia, me digladiava com tantos outros, e ia até às vias de fato, quando praticava o futebol.
Sempre tinha um sonho em minha infância: eu queria praticar uma arte marcial. Mas isto me era um segredo, pois, órfão de pai, desde cedo, não ousava pedir nada à minha mãe, sempre reconhecendo seu sacrifício em nos criar.
Aos cerca de 48 anos, naquele meu momento difícil, cria que uma arte marcial me traria de volta a serenidade, meu Eu. Acertei!
Conheci o Aikido através da internet. E, por coincidência, acessei o site da nossa Escola Tenchi. E disse: é disto que preciso.
A rigor, tornei-me um contumaz “dependente” de minhas emoções positivas vivenciadas no tapete de nosso Dojo. Vi e vejo sempre a caminhada de muitos irmãos por aqui. Alguns caminham a largos passos, ou a passos moderados. Outros, como eu, a passos muito lentos. As batalhas internas são inerentes a cada indivíduo. As minhas focam intensamente o combate à acomodação, à preguiça, à emissão de autodesculpas, de justificativas, ao medo e mais. Por fim, minha trajetória como aikidoca foi, por certo, repleta de lapsos temporais, longas ausências e baixa regularidade na prática do Aikido.
Mas…eu ainda estou aqui – vivo e aberto a novos desafios – tais como o último me proposto pelo nosso Professor Paulo Nunes: “ensinar” como instrutor interino a alguns alunos da nossa Escola às terças e quintas, no horário das 17:00h. Bom, assim respondi à sua proposta:
- Professor, sinto-me honrado com sua confiança. Mas permita-me alterar um pouco o termo: nessa minha nova empreitada – que a encaro como um belo desafio – não me proponho a ensinar àqueles colegas, mas, sim, treinar regularmente com eles e captar neles aqueles erros técnicos que sempre me perseguiram e partir para corrigi-los junto a eles. E assim tem sido, além de me propor a passá-los tudo que absorvi da Filosofia do Aikido.
Aliás, nosso Professor Paulo bem afirmou que ao ensinar e ver os outros praticando o Aikido, corrigindo erros, acendendo faróis na caminhada, aprendemos com mais profundidade os princípios desta bela Arte Marcial. Eu testemunho que isto tem me acontecido.
Hoje me deparo com mais um desafio: uma nova graduação. Na trajetória do Aikido, por exemplo, quando somos graduados com a faixa preta, nós não somos faixa preta naquele momento. Nós passamos a honrá-la e encará-la com a missão de fazer jus àquela nova graduação.
Resta-nos caminhar, caminhar e caminhar.
Quero agradecer profundamente ao nosso Mestre Georges Stobbaerts, ao Professor Paulo Nunes e ao Professor João Simão (meu primeiro Professor). E também ao Professor Manoel Fonseca e a todos os Instrutores e colegas praticantes, que, na medida de cada um, contribuíram para o meu crescimento pessoal e espiritual. Sem deixar ainda de registrar o meu orgulho de ter tantos bons amigos por m² nesta Escola tão maravilhosa.
Somos Um,
Texto apresentado como requisito parcial para exame de graduação de 1º Dan realizado em 20 de dezembro 2025.