Kata é uma palavra japonesa que significa forma. No contexto das artes marciais, representa um conjunto de movimentos codificados transmitidos por uma escola, que guardam não apenas técnica, mas também intenção, ritmo, presença e estado de espírito.
Como enfermeira obstetra em formação e praticante de Aikido, percebi que há muitas semelhanças entre um Kata e o nascimento de uma nova vida. O Kata, assim como a assistência ao parto, começa muito antes do primeiro movimento ou técnica obstétrica e permanece muito depois do “final”. Eles exigem disponibilidade interior, atenção plena e a capacidade de estar inteiro no momento presente. Não se trata apenas de executar corretamente as técnicas, mas de estar pronto no momento justo, permitindo que o movimento aconteça sem forçar, sem antecipar, sem resistir.
Há um texto do mestre George Stobbaerts que diz haver no Kata uma espécie de “perfume”: algo sutil, quase invisível, que pode ser sentido tanto por quem executa quanto por quem observa. Na obstetrícia, especialmente no trabalho de parto e no nascimento, esse perfume também existe. Ele se manifesta quando o ambiente está em harmonia, quando a mulher se sente segura, quando a equipe sabe esperar e sustentar o tempo próprio do processo. O nascimento, assim como o Kata, não pode ser apressado nem controlado em excesso, ele pede escuta, presença e confiança.
O trabalho de parto é, para mim, um grande Kata da vida. Assim como no Kata, o principal obstáculo não está no corpo, mas na mente. O medo, a ansiedade e a necessidade de controle interrompem o fluxo natural do processo. Tantas vezes, pela ansiedade de parir e carregar seus filhos nos braços, elas perguntam: “Como eu vou saber a hora de fazer força?” e nós sempre dizemos: “Escuta teu corpo. Ele vai saber a hora.” Quantas vezes dei esse conselho sem perceber exatamente o que eu estava falando. O nosso corpo pede para ser escutado o tempo inteiro, mas a nossa mente insiste em dominar e nós facilmente aceitamos.
No Kata da vida, cada contração é um movimento que surge, cresce, atinge seu ápice e se dissipa. A mulher em trabalho de parto aprende, pouco a pouco, a “habitar” esse movimento, a deixar-se atravessar por ele, em vez de lutar contra. De maneira descontraída, dizemos entre nós que ela entrou na ‘‘partolândia’’. No início eu achava esse nome engraçado, mas graças ao professor Paulo que me provocou a escrever este texto, percebi que quando a mulher está lá, como que em uma dimensão à parte, transportada até lá pela dor, quando isso acontece, algo especial acontece, a energia vital passa a conduzir o processo de forma natural, fluida, quase silenciosa. O bebê se encaixa, desce lentamente, no tempo dele, rotaciona para desprender a cabeça e depois o corpo. Cada movimento tem uma forma que não é imposta, mas que emerge como uma coreografia não ensaiada. O profissional que acompanha precisa estar no mesmo estado: atento, disponível, com o ego em segundo plano, pronto para agir apenas quando necessário. É assim que a partir de agora passo a enxergar o significado de Kata. Não tenho a pretensão de querer fazê-los entender todas essas palavras a partir do meu gesto, mas em cada execução, tentarei aflorar em mim essa energia vital.
Termino com conselhos do mestre para o praticante:
O praticante do Kata deve deixar-se, de algum modo, ‘’habitar’’ou ‘‘viver’’pela forma que ele executa. Aquele que conheceu este momento, procurá-lo-á em qualquer momento.
e
Quando fores praticar o Kata, deves saber que a tua vida deve ser à imagem de um Kata. Kata é criar condições que, se estiveres à escuta, te permitirá sentir o murmúrio do conhecimento universal. E, sobretudo, no Kata sê tu mesmo.
Texto apresentado como requisito parcial para exame de graduação de 2º Dan realizado em 20 de dezembro 2025.